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domingo, 29 de março de 2015

Fernando pessoa Heterónimos : Álvaro de Campos


Álvaro de Campos



Álvaro de Campos surge quando Fernando Pessoa sente “um impulso para escrever”. O próprio Pessoa considera que Campos se encontra no «extremo oposto, inteiramente oposto, a Ricardo Reis”, apesar de ser como este um discípulo de Caeiro.
Campos é o “filho indisciplinado da sensação e para ele a sensação é tudo. O sensacionismo faz da sensação a realidade da vida e a base da arte. O eu do poeta tenta integrar e unificar tudo o que tem ou teve existência ou possibilidade de existir.
Este heterónimo aprende de Caeiro a urgência de sentir, mas não lhe basta a «sensação das coisas como são»: procura a totalização das sensações e das percepções conforme as sente, ou como ele próprio afirma “sentir tudo de todas as maneiras”.
Engenheiro naval e viajante, Álvaro de Campos é figurado “biograficamente” por Pessoa como vanguardista e cosmopolita, espelhando-se este seu perfil particularmente nos poemas em que exalta, em tom futurista, a civilização moderna e os valores do progresso.
Cantor do mundo moderno, o poeta procura incessantemente “sentir tudo de todas as maneiras”, seja a força explosiva dos mecanismos, seja a velocidade, seja o próprio desejo de partir. “Poeta da modernidade”, Campos tanto celebra, em poemas de estilo torrencial, amplo, delirante e até violento, a civilização industrial e mecânica, como expressa o desencanto do quotidiano citadino, adoptando sempre o ponto de vista do homem da cidade.
O drama de Álvaro Campos concretiza-se num apelo dilacerante entre o amor do mundo e da humanidade; é uma espécie de frustração total feita de incapacidade de unificar em si pensamento e sentimento, mundo exterior e mundo interior. Revela, como Pessoa, a mesma inadaptação à existência e a mesma demissão da personalidade íntegra., o cepticismo, a dor de pensar e a nostalgia da infância.


Biografia

·        Nasce em Tavira, em 1890
·        Estuda engenharia mecânica e naval na Escócia
·        “Filho indisciplinado da sensação e para ele a sensação é tudo. O sensacionismo faz da sensação a realidade da vida e a base da arte.”
·        “Sentir tudo de todas as maneiras”
·        Vanguardista e cosmopolita
·        Único heterónimo que comparticipa da vida extra literária de Fernando Pessoa heterónimo


Fases

     Primeira – decadentismo (1914)

Eprime o tédio, o cansaço e a necessidade de novas sensações (“Opiário”); o decadentismo surge como uma atitude estética finissecular que exprime o tédio, o enfado, a náusea, o cansaço, o abatimento e a necessidade de novas sensações. Traduz a falta de um sentido para a vida e a necessidade de fuga à monotonia. Com rebuscamento, preciosismo, símbolos e imagens apresenta-se marcado pelo Romantismo e pelo Simbolismo.
·       Tédio, cansaço, necessidade de novas sensações
·       Falta de um sentido para a vida
·       Romantismo e simbolismo
·       Nostalgia
·       Saturação
·       Embriaguez do ópio
·       Horror à vida
·       Realismo satírico
·       Vocabulário precioso e vulgar
·       Imagens
·       Símbolos
·       Estilo confessional brusco
·       Decassílabos agrupados em quadras
·       “Opiário “

Segunda – Futurismo (1914 a 1916)

Nesta fase, Álvaro de Campos celebra o triunfo da máquina, da energia mecânica e da civilização moderna. Sente-se nos poemas uma atracção quase erótica pelas máquinas, símbolo da vida moderna. Campos apresenta a beleza dos “maquinismos em fúria” e da força da máquina por oposição à beleza tradicionalmente concebida. Exalta o progresso técnico, essa “nova revelação metálica e dinâmica de Deus”. A “Ode Triunfal” ou a “Ode Marítima” são bem o exemplo desta intensidade e totalização das sensações. A par da paixão pela máquina, há a náusea, a neurastenia provocada pela poluição física e moral da vida moderna.
·        Elogio da civilização industrial e da técnica
·        Triunfo da máquina, beleza dos “maquinistas em fúria”
·        Intelectualização das sensações, delírio sensorial
·        Não aristotélica
·        Sado masoquismo
·        Cantar lúcido do mundo moderno
·        Influência de Walt Whitman
·        Vertigem das sensações modernas
·        Volúpia da imaginação
·        Hipertrofia ilimitada do eu
·        Energia explosiva
·        Impulsos inconscientes
·        Verso livre, longo
·        Estilo esfuziante, torrencial
·        Anáforas, exclamações, interjeições, apóstrofes e enumerações
·        Fantasia verbal
·        Volúpia de ser objecto
·        Vítima
·        Dispersão
·        “Ode triunfal”


Terceira fase –  pessoal ou intimista (1916 a 1935)

Perante a incapacidade das realizações, traz de volta o abatimento, que provoca “Um supremíssimo cansaço, /íssimo, íssimo, íssimo, /Cansaço…”. Nesta fase, Campos sente-se vazio, um marginal, um incompreendido. Sofre fechado em si mesmo, angustiado e cansado. (“Esta velha angústia”; “Apontamento”; “Lisbon revisited”).
·       Melancolia
·       Devaneio
·       Cosmopolitismo
·       Cepticismo
·       Dor de pensar
·       Saudades da Infância ou do Irreal
·       Dissolução do eu
·       Conflito entre a realidade e o poeta
·       Cansaço, tédio e abulia
·       Angustia existencial
·       Solidão
·       “Aniversário” e a “Tabacaria”


Traços da sua poesia

·        Poeta modernista
·        Poeta sensacionista
·        Cultor das sensações sem limite
·        Poeta de verso livre
·        Poeta de angustia existencial e da auto ironia


Traços estilísticos

·        Verso livre em geral muito longo
·        Assonâncias, onomatopeias, aliterações
·        Grafismos expressivos
·        Mistura de níveis de língua
·        Enumerações excessivas, exclamações, interjeições e pontuação emotiva
·        Desvios sintácticos
·        Estrangeirismos e neologismos
·        Subordinação de fonemas
·        Construções nominais, infinitivas e gerundivas
·        Metáforas ousadas, oximoros,  personificações, hipérboles
·        Estética não aristélica na fase futurista.


Quadro-Síntese:


Temáticas
Estilísticas
-         Apologia da civilização mecânica, da indústria, da técnica (futurismo e sensacionismo): tentativa de romper com o subjectivismo da lírica tradicional
-         Atitude escandalosa, chocante: trangressão de uma atitude moral estabeleciada
-         Traços de anti-filosofia e anti-poesia
-         Sadismo e masoquismo
-         Ilusão: sonho; retorno impossível à infância; viagem
-         Mais evolutivo que qualquer dos outros heterónimos (três fases)
-         Última fase: conflito realidade/poeta: cansaço existencial, náusea, tédio, abulia; estranheza da realidade solidão; isolamento; dissolução do “eu”; ritmo lento
-         Exclamação, apóstrofe repetida, interjeição, gradação (ascendente e descendente)
-         Repetição, simetria de construção, assonância, aliteração, rima interior, enumeração desordenada, polissíndeto
-         Construções nominais e infinitivas
-         Verso livre e, em geral, muito longo ( duas ou três linhas) e com encavalgamento
-         Onomatopeia
-         Grafismo inovador
-         Oxímoro
-         Uso expressivo da pontuação: exclamação, interrogação, reticências
-         Estrangeirismos, neologismos e susbstantivação de fonemas
-         Metáfora, personificação e hipérbole

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